Prisioneiras

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VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. Companhia das Letras, 2017.

 

O último livro da trilogia escrita pelo médico Drauzio Varella sobre as cadeias de São Paulo é uma espécie de desfecho que contextualiza a realidade carcerária brasileira. Depois de Carandiru e Carcereiros, Prisioneiras encerra a série.

O primeiro capítulo, “Chegada”, além de introduzir o contato do autor com as personagens, também mostra como é o relacionamento íntimo entre as presas, a complexidade hierárquica na cadeia feminina e os códigos de conduta.

“Gritaria infernal” é um capítulo hilário ao tratar do barulho provocado pela histeria natural das mulheres presas e “Santíssima Inocência” também arranca risadas com a leve ironia do autor.

A solidão e a carência afetiva por causa do abandono dos familiares e a distância forçada dos filhos é retratada com detalhes. Quem já leu os outros livros de Drauzio sabe como ele consegue descrever minuciosamente cada história e cada personagem.

Ele apresenta pontos cruciais para o problema do sistema penitenciário no Brasil como a legislação sobre drogas. Drauzio mostra como essa questão é crucial e precisa ser alterada para mudar o cenário no sistema prisional brasileiro e principalmente nas cadeias femininas.

A questão devastadora do crack, a abolição da droga nas cadeias e a eficácia da prisão para a abstinência dos adictos são temas que precisam ser debatidos. A importância desse comércio paralelo para a economia local e a exploração racional desse mercado peculiar nas prisões é descrito de uma forma única por Drauzio.

A apresentação do cotidiano e as dificuldades das agentes penitenciárias ao entrar para o serviço público no Estado de São Paulo, principalmente devido à distância do local de trabalho de onde moram também não são esquecidas pelo médico.

Drauzio detalha o funcionamento do PCC (Primeiro Comando da Capital) desde a fundação da facção. Os motivos, a ideologia e como o código penal e julgamentos – claros e sumários – são eficientes para a organização criminosa.

Em relação às cadeias femininas especificamente, ele classifica os relacionamentos sexuais entre as detentas de acordo com o papel que cumprem no coito. As descrições dos abusos sexuais que algumas presas sofreram na infância são chocantes.

No epílogo, Drauzio Varella escreve com propriedade acerca da violência urbana e os fatores de riscos que envolvem fundamentalmente crianças e adolescentes e como o especialista que se tornou conclui que a “violência urbana é doença contagiosa de etiologia multifatorial”. O autor não se coloca como juiz, mas como médico que está em uma condição de observação privilegiada.

 

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