Estação Carandiru

Beira-Mar comanda o crime da cadeia – DC Memória
5 de Março de 2018

VARELLA, Drauzio. Carandiru. Companhia das Letras, 1991.

Assim que o portão da Penitenciária do Estado foi aberto no Complexo do Carandiru, um médico cancerologista formado há 20 anos, sentiu o mesmo frisson de quando assistia aos filmes de cadeia quando era jovem. Em 1989, entrou na prisão para um trabalho voluntário com presos para prevenção da AIDS. Duas semanas depois, se ofereceria a atender voluntariamente essas pessoas duplamente discriminadas, pela doença e por estarem presos na Casa de Detenção.

O Dr. Drauzio Varella se transformaria em um dos maiores especialistas do sistema prisional brasileiro por ter convivido e percebido, com olhar clínico, as nuances das relações interpessoais do microcosmo de uma cadeia.

O texto simples e conciso, como também bem-humorado, torna a leitura prazerosa de um tema bem pesado. Quem não está envolvido nesse universo só se interessa em conhecê-lo quando é movido pela curiosidade, que é suprida nos detalhes descritos por Drauzio.

Ao desenhar a prisão em Estação Carandiru, inevitavelmente ele inicia com a corrupção praticada e reprimida pelos próprios carcereiros. Estigmatizados como tão criminosos como aqueles que custodiam, Drauzio diferencia e mostra como toda generalização é limitada e injusta.

O cenário de boa parte das histórias do livro acontece na enfermaria da cadeia. Nos primeiros capítulos, o autor descreve o casarão (cadeia), o barraco (celas), a depressão que leva ao suicídio, o alívio no dia de visita, sempre detalhando comportamento e as relações entre os principais atores desse cenário sombrio, o preso e o carcereiro. As regras de procedimento como as que acontecem durante as visitas íntimas são mais respeitadas do que as leis promulgadas pelo Estado.

Um dos maiores aprendizados que teve foi não abrir exceções para os presos. A igualdade de tratamento deve sempre prevalecer se quiser trabalhar dentro de uma cadeia.

O exímio detalhamento como a descrição do baque, o uso da cocaína injetável, que é um dos principais fatores, ao lado do sexo anal desprotegido e com vários parceiros, da epidemia de AIDS na Casa de Detenção como também do processo de fabricação da Maria-louca leva o leitor para dentro da cadeia. Quem lê consegue visualizar cada um desses processos como se tivesse assistindo a um documentário com imagens gráficas.

O médico disseca o ambiente prisional com os detalhes cirúrgicos os quais descreve os efeitos de uma doença ou de uma morte violenta como no capítulo Deusdete e Mané.

Cozinha Geral mostra como a comida é o ponto nevrálgico da cadeia e como a autogestão dos presos funciona e faz a cadeia andar no caso de unidades superlotadas como era a Detenção.

As diversas histórias dos presos mostram o lado humano de quem cometeu um crime sem a emitir qualquer espécie de juízo. O leitor conhece o azarado e mulherengo Ezequiel em “mulher, motel e gandaia” e o apaixonado e ciumento Miguel. O neguinho com o olhar de ódio e o Miguel “inocente”. A sabedoria do Seu Jeremias com estratégias para sobreviver na cadeia. E como alguns têm a vida condenada à desgraça como o infeliz Sem-Chance.

O próprio autor é tipificado como aprendiz de feiticeiro por querer distribuir camisinha para os presos no ano de 1992.

E por fim o levante que acabou com 111 mortos. Ele apresenta as versões que ouviu, mas enfatiza a dos custodiados. Afinal, quem teria a possibilidade, e o interesse de fazê-lo, a não ser o Dr. Dos Presos.

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