Carcereiros

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VARELLA, Drauzio. Carcereiros. Companhia das Letras, 2012.

O segundo livro sobre as cadeias paulistas começa com um dia trágico. O mesmo, que encerrou a primeira obra da trilogia. Dessa vez, sob o ponto de vista dos trabalhadores do cárcere, Drauzio Varella mostra o ofício dos carcereiros, quem são e o que fazem aqueles que estão na linha de frente da custódia de presos.

Treze anos depois de Carandiru, Drauzio escreve sob a perspectiva de quem vigia os prisioneiros. Personagens de histórias inusitadas típicas do cotidiano de uma cadeia como a de Hulk, uma espécie de justiceiro interno. Trata da corrupção em Questão de princípios.

A escolha para trabalhar em uma prisão praticamente não existe. A segurança financeira supera a pessoal. Artifícios como se beneficiar dos presos delatores, a quebra de acordos, trapaças e em decorrência de tudo isso a violência que os agentes penitenciários não conseguem evitar.

As artimanhas dos presos às vezes são frustradas pela sabedoria de um carcereiro experiente. Os diversos personagens apresentam as estratégias, táticas e artifícios do ofício para sobreviver dentro e fora da cadeia.

O valor da palavra de um homem é algo imprescindível no relacionamento dentro da cadeia. Carcereiros é um relato que o autor consegue fazer sem qualquer tipo de juízo e o máximo de isenção.

Os personagens são homens com quem Drauzio se reuniu em um bar e reuniões de família para ouvir histórias do submundo.

No capítulo Solidariedade se resume o clima tenso vivido no ambiente prisional. Além dos presos, a preocupação com o carcereiro bandido faz o trabalhador correto desconfiar de tudo e de todos. Até o silêncio preocupa, atemoriza, em uma cadeia.

Mulheres, esposas, cachaça. O envolvimento de um carcereiro com uma visitante, que o chantageia e um final inesperado. A violência contagiosa, a tortura. O inferno de Joyce e a Implosão tratam da hipocrisia social.

Em Fábrica de ladrões levanta uma reflexão sobre o futuro da nossa sociedade com essas prisões superlotadas que temos atualmente.

O próprio Drauzio conta como a cadeia afetou a personalidade e a vida dele, que trabalhou lá de forma voluntária e em poucas horas por semana. O autor faz uma reflexão sobre como esses homens que trabalham no cárcere sofrem.

O livro de Drauzio Varella é fácil de ler porque é escrito de forma simples. Embora pareça fácil, não é. Em várias entrevistas, o médico falou da vocação de contador de histórias. Não é à toa que também é um autor de livros infantis.

O texto conciso e objetivo supera à mera técnica de redação jornalística e mostra como um observador participante pode fazer a diferença. Com um humor carregado de ironia, Drauzio é a voz daqueles que não têm voz.

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